Fux e sua conduta arrogante
Primeiramente, admito que ouvir o Reinaldo Azevedo se enfurecer com a conduta arrogante do Fux no processo recente de aceitação da denúncia da PGR contra o Biroliro e os outros sete. Incluindo nesta fúria o desgosto com o uso da expressão “caso do batom” pelo ministro, me fez validar internamente meu pensamento. Fico feliz de ver um analista político de tal porte falar as mesmas coisas que eu falo neste meu pequenino nicho da internet (e ao ponto de estourar os tímpanos da minha mãe e do meu cachorrinhoinho [sim, porque ele é muito pequeno] aqui em casa).
Eu nem tinha percebido que o Fux mencionou que os ministros talvez tivessem dado penas “altas demais” por terem julgado as coisas com “emoções fortes do momento”. Mas assim que percebi… Minha Deusa, ele foi muito ridículo. Ele deu um argumento ferrado para todos os bolsonaristas que defendem penas curtas para esses golpistas. Sim, golpistas, porque aqueles que não apoiaram o golpe foram liberados da prisão com outras medidas cautelares que não a privação de liberdade. Enquanto isso, os que permaneceram presos se recusaram a aceitar acordos de não persecução penal por declararem sua preferência por uma intervenção militar. Mas, como já dizia o ex-deputado federal cassado pela lei que ele mesmo apoiou, Deltan Dallagnol, “in Fux we trust” (em Fux, nós confiamos, em tradução livre), não é mesmo?
Porém a conduta do Fux não é o único problema. A conduta da imprensa também foi um problema desgraçadamente grande pós-sessão do STF. Eu ainda não acredito que o discurso de quase uma hora do Bolsonaro, contando as mesmas mentiras de sempre, foi transmitido ao vivo nas maiores emissoras sem interrupção. Mesmo quando estava claro que ele não estava falando nenhuma coisa nova. Estava simplesmente repetindo as mesmas mentiras descabidas de sempre. Além disso, nem teve suas falas refutadas pelos comentaristas que “analisaram” suas palavras logo após o ocorrido.
Bolsonaro e suas mentiras.
“Não pude colocar o Lula falando que é a favor do aborto”. É mentira. Não há vídeo do Lula falando que é a favor do aborto, muito pelo contrário. O Presidente já disse trocentas vezes que é católico e portanto contra o aborto. Contudo, ele entende que há de haver uma política pública de saúde para regulamentar o aborto, porque ele é sim um problema de saúde. O Estado regulamentar ou não faz diferença na possibilidade de morte das mulheres de baixa renda que às vezes tentam abortar por métodos sem segurança.
Sejamos sinceros: a pessoa que tem condição de ir ao exterior, seja ao Uruguai ou à Argentina (dois países fronteiriços nossos que têm política pública de aborto) faz o procedimento de maneira segura e sobrevive. A questão é que ser contra o aborto não faz com que ele não aconteça. Pois aquelas com condições financeiras mais favoráveis o fazem com acompanhamento médico. Aquelas com condições desfavoráveis o fazem de qualquer jeito. O ponto é dar a mesma importância à vida daquelas que dependem do Estado para cuidar de sua saúde. Bem como à vida da mulher de classe média alta que consegue ir a uma clínica privada para realizar seu procedimento.
“Não pude colocar vídeos do enterro da Rainha da Inglaterra”. Lógico, Bolsonaro. Isso seria abuso de poder político e você seria considerado inelegível mais uma vez. As eleições partem do princípio de paridade de armas entre os candidatos. Daí vem a existência de um fundo eleitoral. Você não pode utilizar vídeos e manifestações realizadas enquanto Presidente da República. Pois você tem acesso a situações e ferramentas que outro candidato fora do poder não tem.
“Não pude colocar vídeos do 7 de Setembro”. Óbvio que não, pela mesma razão descrita acima.
“Não pude colocar vídeos do Lula se encontrando com traficantes no Morro do Alemão e usando boné que diz ‘cupincha’”. Porque é uma mentira, ô Bozo, querendo fazer todos nós de palhaços como o senhor. O Lula nunca se encontrou com traficantes no Morro e o boné com CPX significa “complexo”, até porque cupincha é com CH, não X. Não adianta querer forças as regras da ortografia dentro da sua ideologia, ela não funciona ao seu bel prazer.
“As urnas são inauditáveis”. Mentira. O Presidente do seu partido pediu uma verificação nas urnas e viu que não houve fraude. Nem dessa vez, nem nunca. O Bolsonaro vive dizendo que o Aécio, em 2014, divulgou através do seu partido PSDB que as urnas eram inauditáveis. Portanto, era impossível dizer se a Dilmãe havia vencido as eleições ou não. Mais uma mentira: o PSDB confirmou que sim, a Dilmãe havia vencido e as eleições haviam sido limpas e justas. Embora a frase dita pelo líder do partido na câmara, na época, deixe sim dúvidas. Parafraseando, Carlos Sampaio disse que “o fato de não terem sido achadas falhas não quer dizer que o sistema é inviolável”.
“Eu imprimi a minuta de curiosidade”. Uau, curiosidade sobre uma minuta golpista? Isso só confirma uma das provas consideradas falsas pelo seu advogado Celso Villard. Sua defesa diz que nunca houve minuta alguma, muito menos que você algum dia havia tido ela em mãos. Você mesmo acaba de destruir o muro de papel machê que seu defensor tentava erguer.
Ao final, esse discurso do Bolsonaro nada mais mostrou do que a maior habilidade do ex-presidente e de seus aliados e seguidores. Eles criam provas contra si mesmos. Embora já houvesse provas suficientes sobre a tentativa de descredibilizar o sistema eleitoral brasileiro sem qualquer evidência concreta.
Não é perseguição, Bolsonaro. É investigação. Provas, não conviccções. Conduta correta da Polícia Federal, que mesmo no governo do seu opositor, não fraudou evidências contra você. Você tem seu amplo direito de defesa garantido, inclusive a liberdade de expressão. Você pode falar com a imprensa e dar entrevistas, o que foi negado ao Presidente Lula na época em que este sim foi perseguido injustamente por um juiz que o tirou da eleição e abriu caminho para a sua vitória. Essas sim foram eleições manipuladas e injustas. Você só venceu porque a maior ameaça ao seu triunfo foi erronameante tirado da corrida presidencial, como provado pela operação “Spoofing”, popularmente conhecida como “Vaza-Jato”.
Engole o choro, Bolsonaro. Não é militar? Militares não são supostamente os corajosos, os corretos, os mais capacitados e invioláveis do Estado Brasileiro?
Não se preocupe, se inocente, o julgamento provará. Entretanto, com as provas que você está produzindo contra si mesmo, creio que você mesmo irá confirmar sua culpa e participação nos crimes listados pela PGR quanto mais abrir a boca.
Tirando uma página de seu próprio livro, Bolsonaro: “Chega de frescura, de mimimi. Vai ficar chorando até quando?”


Deixe uma resposta