A (des)construção da identidade nacional e do voto popular

FUNDAÇÃO ESCOLA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA DE SÃO PAULO

A (DES)CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE BRASILEIRA E DO VOTO POPULAR

Problemas Brasileiros em Perspectiva Sociológica – Profº Dr. Jessé Souza

São Paulo
2025


RESUMO


O ensaio analisa a dualidade entre espírito e corpo na intelectualidade sociológicabrasileira, destacando a oposição entre essas categorias nas obras de Sérgio Buarque deHolanda, Raymundo Faoro e Roberto DaMatta. Buarque, em “Raízes do Brasil”, contrasta oprotestante ascético (espírito) com o homem cordial (corpo). Faoro, em “Os donos do poder”,opõe o mercado liberal (espírito) ao Estado patrimonial (corpo), enquanto DaMatta, em suasobras, diferencia o indivíduo (espírito) da pessoa (corpo). O ensaio também discute como asvirtudes do mestiço, segundo Gilberto Freyre, foram utilizadas politicamente por GetúlioVargas e posteriormente deslegitimadas para manter privilégios da elite. A formação daidentidade brasileira é criticada, apontando que a criminalização da corrupção e a imagemnegativa do homem cordial perpetuam a desigualdade. A figura do “pobre de direita” éexplorada como um produto da manipulação das elites, que ao enfatizarem a inferioridade dopovo, garantem seu controle e perpetuam um sistema no qual a elite se beneficia emdetrimento da população. O ensaio conclui que, ao imitar modelos ocidentais, especialmenteos Estados Unidos, a elite brasileira tem contribuído para a desvalorização do povo, mantendoa narrativa de subserviência e inferioridade.
Palavras-chave: espírito, corpo, patriotismo


O triunvirato da intelectualidade sociológica brasileira tem em seu cerne a preocupação de introjetar no povo brasileiro a oposição espírito/corpo de diversas maneiras,de modo a invisibilizá-la e perpetuá-la no inconsciente coletivo nacional, emprestando acredibilidade de suas figuras para tal fim. Para Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil (2016), é apresentada como protestante ascético (espírito) e homem cordial (corpo).Por Raymundo Faoro em Os donos do poder (1976), o mercado liberal (espírito) contra oEstado patrimonial (corpo). Ao fim, Roberto DaMatta conclui a tríade ao opor em Carnavais,malandros e heróis (1997) e A casa e a rua (1985) o indivíduo como o espírito e a pessoa, o corpo.

As virtudes estabelecidas por Gilberto Freyre em Casa-grande & senzala (2019) na figura do bom mestiço foram instrumentalizadas por Getúlio Vargas na construção de umverdadeiro bem-estar social. Entretanto, sua desmoralização ocorre visando legitimar oprivilégio da elite e classe média, o saque dos bens públicos, a criminalização do Estado e, consequentemente, a criminalização do voto do povo pobre e preto e de seus eleitos.


Neste ensaio, busco expor a contribuição de cada oposição citada anteriormente aosurgimento do contraditório conceito de pobre de direita. “Assim, se quisermos humilhar eoprimir alguém por algum motivo, temos que reduzi-lo a afeto e a corpo e convencê-lo de suainferioridade. Sem isso, não existe dominação social.” (Souza, 2024, p. 18).


Holanda (2016) diz que o protestante ascético é a natureza do estadunidense e doeuropeu, enquanto o homem cordial é a “programação” padrão dos povos latinos, africanos easiáticos, salvo, futuramente, Japão e Coreia do Sul (Souza, 2024).


O protestante ascético de Holanda seria o epítome do estadunidense aos olhos da elitebrasileira subserviente à norte-americana. Não mais por um estoque racial, mas sim umsuposto estoque cultural que o faria inegavelmente ético, democrático, livre, dotado de bomgosto natural (Holanda, 2016), sendo este último um dos motivos pelos quais a indústria deentretenimento estadunidense é considerada superior e como o padrão a ser atingido pormuitos.

Já o homem cordial seria a amálgama dos defeitos do corpo em detrimento dasvirtudes do espírito (Souza, 2024). O homem cordial é incapaz de seguir a letra fria da lei e deser moralmente correto, ao permitir que seu suposto estoque cultural de baixa qualidade afetesua visão de mundo (Holanda, 2016), tornando-o inapto a apresentar decisões e atosdesvinculados de corrupção.

“Buarque não discute os pressupostos não científicos do mito freyriano e apenasinverte seu sentido” (Souza, 2024, p. 55). O protestante ascético de Holanda, a partir doséculo XX, não possui mais a ética associada ao protestantismo pré-industrial; tal correçãomoral mostra-se hipócrita, de acordo com Weber (2020). Isto não é só ignorado por Holanda,como também transforma a figura do homem cordial, o oposto de algo virtualmenteinexistente e, portanto, inexistente por si só.

Ao não individualizar a figura do homem cordial e genericamente aplicá-la à maioriado povo brasileiro, Holanda condena 80% do país à noção de corrupção nata. Com isso, o autor metamorfoseia o processo eleitoral democrático em nativamente corrupto e, portanto, justifica a criminalização de todo e qualquer governo que se tenha popular e não dominadopelos brasileiros que se creiam equivalentes aos protestantes ascéticos estadunidenses: a elite entreguista brasileira que se dispõe a roubar do próprio povo em favor da elite dos EstadosUnidos da América.

Em 1956, Raymundo Faoro acrescenta sua contribuição à (des)construção da identidade brasileira. É Faoro quem institucionaliza o homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda. Faoro (1976) tece uma estória pretendendo-se história, vinculando a supostapatrimonialidade, animalidade do Estado brasileiro a uma inexistente imoralidade de Portugal enquanto sociedade medieval. Disto teria advindo a corrupção e personificação do corpo tão inexorável ao povo brasileiro, sendo este aquele não pertencente à classe média imigrante “europeia” e à elite “estadunidense”.

Não há corrupção na Idade Média como a definimos no mundo moderno (Souza,2025), visto que não há bens públicos a serem usurpados por alguns poucos em detrimento do restante da população. Historicamente, não há questionamento ao patrimônio monárquico e à sua legitimidade até a Revolução Francesa no século XVIII. Dito isto, mesmo assim, Faoro contrapõe o desenvolvimento da nação brasileira a partir da invasão colonizadora de Portugal ao desenvolvimento dos Estados Unidos da América sob administração da Coroa Britânica ainda enquanto colônia.


Souza (2024) aponta que o Brasil, de acordo com Faoro, seria uma sociedade pré-moderna. O Estado ou estamento patrimonial seria formado por pessoas com vidas semelhantes e de uma “noção de prestígio compartilhado” (Souza, 2024, p. 74–75), e que este estamento perpetuaria o molde de uma sociedade na qual as liberdades (definidas pelo autor como o mercado independente, conhecido modernamente como autorregulador) são restringidas para benefício do próprio Estado, transformando sua política em patrimonialista. Isto, para Faoro, seria a definição da sociedade brasileira, enquanto a formação dos Estados Unidos teria permitido às Treze Colônias sua transformação em terra da liberdade, novamente deixando obscuros os esforços estatais por trás dos sucessos econômicos do que é hoje o país com a maior economia mundial.


Desconsiderando os contextos históricos a fim de que os acontecimentos se ajustem intencionalmente à sua teoria, Faoro negligencia a compreensão de que o Estado, na sua essência democrática, propicia a participação da população, independentemente de classe social ou da posse de capitais, uma conquista do sufrágio universal brasileiro consagrado na Constituição Cidadã de 1988, que permanece em vigor até os dias atuais. O mercado financeiro, por outro lado, garante a participação somente daqueles com o capital cultural eeconômico pertencentes a uma ínfima parcela da população, isto é, não o povo considerado brasileiro e tem orgulho de ser nacional de Pindorama.


Roberto DaMatta completa esta tríade de desmonte da autoestima e autoconfiança d opovo brasileiro ao formular o estereótipo de maior inveteração à identidade e capacidade eleitoral de seus compatriotas: o jeitinho brasileiro.

Esquadrinhando os hábitos do cotidiano brasileiro em Carnavais, malandros e heróis, DaMatta (1997) infere ser a sociedade tupiniquim uma estrutura dual, referindo-se à oposição das figuras de indivíduo, representante do espírito, e de pessoa, representante do corpo, díspar da unicidade da nação indiana e da estadunidense (Souza, 2024).


Para DaMatta (1997), a tradição brasileira seria “da casa”, isto é, há uma predominância da “pessoa” sobre o “indivíduo”. Constitui-se a figura da “pessoa” como aquele que se deixa dominar pelo afeto, aplicando a lei com a firmeza adequada e até mesmo extremada, aos inimigos e desafetos, ao passo que confere vantagens àqueles que considera aliados e amigos. De acordo com DaMatta (1997), há espaços sociais nos quais predomina uma ou outra classificação previamente mencionada: o indivíduo impera no espaço “rua”,enquanto a pessoa domina o espaço “casa”.

Em seus próprios lares e residências, pessoas seriam super cidadãos (Souza, 2024), sendo preponderantes aos padrões institucionais impessoais encontrados na rua, estabelecidos pelo mercado e pelo Estado, sendo estes “papéis sociais, ideologia e valores, ações e objetos específicos, alguns inventados especialmente para aquela região social” (DaMatta, 1997,p. 74–75). Em celebrações e festivais, os espaços sociais se misturariam por tempo limitado, retornando à primitiva dicotomia progressivamente até se sedimentarem em seus moldes iniciais. (DaMatta, 1997).

Sendo o espaço social a casa ou a rua, o preto pobre é sempre forçado ao papel de sub-cidadão, subserviente e vítima do “Você sabe com quem está falando?”, ritual considerado a linha condutora da índole brasileira para DaMatta (1997). Vendo que pessoas de direita tendem a ser aquelas que utilizam tal ritual, nada é mais natural do que a emulação de talc omportamento com a intenção inconsciente de levantar-se da condição de suposta inferioridade sob a qual são colocadas pelos super cidadãos existentes nos diferentes espaços sociais.

Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro e Roberto DaMatta esforçam-se e, com sucesso, conseguem imprimir ao brasileiro a baixeza frente aos chamados países do Ocidente. Seja através da oposição homem cordial/protestante ascético, Estado patrimonialista/mercado independente ou indivíduo/pessoa, é continuada a afirmação do povo brasileiro como torpe e animalizado em relação ao “Ocidente”, tendo os Estados Unidos como primado da perfeição do desenvolvimento sociológico humano.


Se os Estados Unidos são o exemplo a ser seguido, a elite é quem melhor sabe emulá-lo e manipular através do predomínio do controle da imprensa o povo para que este vote a favor dos interesses que a si, desinteressam, mas que supostamente os deixaria “menos pior” do que seus compatriotas que buscam um Estado com menos desigualdade e mais soberania popular.

O pobre de direita existe porque gerações de elites desde a elite cafeeira paulista do século XIX, preocuparam e preocupam-se em criar mecanismos para enganar seus iguais a acreditarem serem menos e incapazes de tecer seu futuro sem orientação da “mão invisível” daqueles que se apresentam como representantes do espírito.


REFERÊNCIAS

DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: Para uma sociologia do dilema brasileiro. Editora Rocco, v.3, f.195, 1997, 389 p.

FALSOS DONOS DO PODER: Raymundo Faoro e a criminalização do Estado. Prof. Dr.Jessé Souza. Instituto Conhecimento Liberta/FESPSP, 2025. Videoaula (18min).Disponível em: https://ead.iclpos.com.br/course/view.php?id=840&section=2#module-614. Acesso em: 25 set. 2025.

FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro, f.212. 1976. 424 p.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. Global Editora e Distribuidora Ltda, v.3, f.403, 2019. 806 p.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil: Edição crítica – 80 anos [1936-2016]. Editora Companhia das Letras, v.3, 2016. 386 p.

O RACISMO COMO FALSO MORALISMO: Sérgio Buarque e o “homem cordial”: liberalismo racista e elitista brasileiro. Prof. Dr. Jessé Souza. Instituto Conhecimento Liberta/FESPSP, 2025. Videoaula (38min). Disponível em: https://ead.iclpos.com.br/course/view.php?id=840&section=2#module-609. Acesso em: 24set. 2025

O SONHO DE UM BRASIL GRANDE: Gilberto Freyre e o culturalismo brasileiro. Prof. Dr.Jessé Souza. Instituto Conhecimento Liberta/FESPSP, 2025. Videoaula: (26min). Disponível em:
https://ead.iclpos.com.br/course/view.php?id=840&section=1#module-599. Acesso em: 24set. 2025


RALÉ DOS NOVOS ESCRAVOS E A ELITE DO ATRASO: A elite do atraso e a classe média.Prof. Dr. Jessé Souza.I nstituto Conhecimento Liberta/FESPSP, 2025.Videoaula (26min).Disponível em:
https://ead.iclpos.com.br/course/view.php?id=840&section=4#module-639. Acesso em: 24 set. 2025

SOUZA,Jessé.Brasil dos humilhados: uma denúncia da ideologia elitista. 6 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,2024. 224 p. cap. Introdução

WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. Editora Companhia das Letras, v.3, f.172,2004.344 p.



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