REFLEXÃO: Produções culturais são exaltadas ao derreter a candidatura de Flávio Bolsonaro, mas não por seu próprio valor.

Me peguei, nesses dias, falando com a minha mãe, em desespero, sobre como ganhar dinheiro, me sentindo um fardo econômico para ela. Claro que faço gratuitamente trabalhos para ela que qualquer profissional da área de edição de vídeo ou de media training cobraria, mas isso nunca me pareceu significativo o suficiente para pagar pelo meu valor e peso nas contas dela.

Minhas áreas são todas de humanas: tradução, música, pintura, escrever meus artigos aqui e também meus artigos de espiritualidade.

Pela lógica capitalista em que vivemos hoje, talentos voltados às humanidades não têm o menor valor agregado. O tempo que um músico passa dedicando-se à sua arte, ou que, por exemplo, eu passo escrevendo aqui sem esperar nenhuma renda em troca, entretanto afiando minha habilidade de escrita e de análise política, é considerado, pela nossa sociedade, inútil.

E eu notei recentemente que essa percepção de inutilidade agora está marcada a ferro e fogo na minha personalidade e na minha opinião sobre mim mesma.

Quando eu estava no Ensino Médio, ouvi da minha professora de Português e Literatura que eu estava sendo burra ao escolher seguir uma carreira de cantora, porque eu passaria fome e moraria debaixo da ponte. Não havia utilidade em tal profissão, foi o que a ela disse.

Entretanto, quando o mundo entra em pânico e precisa de algo ao que se prender para manter a sanidade, volta-se aos artistas: durante guerras, na pandemia da COVID-19, no enfrentamento ao governo protofascista do Jair Bolsonaro… E a hipocrisia permanece: não há benefício no desenvolvimento de cultura, dizem. Os profissionais são mal pagos, não valorizados e constantemente encorajados a deixar de lado sua missão de alma para trabalhar como máquinas a serviço dos burgueses modernos.

E vemos agora que a cultura é exatamente o que está derrubando a candidatura de Flávio Bolsonaro, um dos maiores defensores deste sistema capitalista voltado à autofagia de seu próprio povo. A justiça tarda, mas não falha, quanto ao karma que devia ser pago pelo ódio à cultura daqueles que têm as mesmas ideologias da extrema-direita.

Para uma sociedade tão culturalmente rica como a nossa, com tantos artistas natos, tantas contribuições de tantos povos, tantas criações únicas advindas da miscigenação que forma a nossa população; para essa nação, a visão do campo de humanas todo (praticamente) como inútil, perda de tempo e equivalente a vagabundear por aí, é destruir o que há de maior entre os nossos trunfos frente à hegemonização da cultura mundial, usando a indústria estadunidense como padrão a ser seguido.

Talvez exigir que nós, brasileiros, sejamos robôs a serviço das chamadas elites, da oligarquia deste país que mais o odeia do que aprecia, e neguemos nossa predisposição artística seja um dos motivos para o Brasil ser o país que mais consome ansiolíticos no mundo.

É lamentável que aos 25 anos eu ainda não saiba como fazer de meus talentos, renda, visto que eles não são apreciados pelo sistema econômico sob o qual vivemos. Estou desiludida, aturdida e isso me causa uma tristeza sem fim.

Ainda não descobri como resolver este meu dilema, mas isso não me impede de compartilhá-lo aqui, sabendo que outros também passam pelo mesmo infortúnio que me causa severa ansiedade e depressão, além de uma grotesca visão autodepreciativa.



Deixe um comentário