Apesar de você
“Apesar de Você”, Chico Buarque
Amanhã há de ser outro dia
[…]
Quando chegar o momento
Este meu sofrimento
Eu vou cobrar com juros
Eu juro!
Eu sei que amanhã é só a confirmação da denúncia, já que [preparem a melhor voz de Andréia Sadi] informações de bastidores (tcha-ram!) dão conta da aceitação unânime da denúncia de crime contra o estado democrático de direito da Procuradoria Geral da República por parte do Supremo Tribunal Federal.
Já é um começo. Pra quem achou que o Bolsoliro sairia andando sem nenhum problema da situação golpista, que nem eu (que estava e estou torcendo fervorosamente pela punição adequada pelos seus crimes, respeitado o amplo direito de defesa e blábláblá), isso é um passo gigantesco.
Embora…
Ontem eu estava ouvindo o MidCast e o Rodrigo Hipólito (um beijo aqui pro meu leitor bem à la MidCast) bem raivosamente mas, ao meu ver, sendo esse o tom correto para falar do assunto, lembrou que o assassino de milhares de pessoas por aí está livre. Que os algozes de quem morreu afogado no seco ainda estão livres. Que aqueles que recusaram oxigênio ao Amazonas por ter que pedir à Venezuela estão aí, vivendo de forma mais confortável que nós, mais ricos que nós e mais despreocupados que nós. E esse é um dos maiores crimes cometidos.
Fico feliz com a denúncia de golpe? Sim.
Entretanto, ela me faz pensar: deveria a denúncia de golpe ser a única à bater no lombo de Jair Messias Bolsonaro e seus asseclas militares? Esses militares envolveram-se em um monstruoso crime na gestão da pandemia: o genocídio sim de 715.610 pessoas¹.
ge-no-cí-dio²
substantivo masculino
Extermínio proposital que aniquila, mata uma comunidade, um grupo étnico ou religioso, uma cultura ou civilização etc.: o genocídio dos índios das Américas.
Massacre que atinge um grande número de pessoas, populações ou povos.
Ação de aniquilar grupos humanos através da utilização de diferentes formas de extermínio: a pobreza ou a fome em certas regiões do mundo, o sequestro permanente de crianças e refugiados são exemplos de genocídio.
Etimologia (origem da palavra genocídio). A palavra genocídio deriva da junção de geno-, do grego “genus”, que significa raça, e do sufixo -cídio, do latim “caedere”, com sentido de matar.
Não estou falando no quesito legal, embora se enquadre nele também. Querer extinguir a população brasileira é o que, se não um extermínio em massa? Voluntariamente se negar a vacinar o povo pelo qual você jurou ser responsável em 1º de janeiro de 2019, até antes, se pegarmos o Juramento à Bandeira que o Jair e seus capangas devem ter feito como militares tem outra definição? Não ao meu ver. Embora tenha certas dúvidas de que seus cérebros tenham sido capazes de registrar o real significado das palavras que estavam palavreando em tais juramentos.
Sim, devemos comemorar que o golpista filha da mãe que era considerado mau militar até mesmo pelo monstro que foi o Geisel³ está sendo colocado frente à Constituição que jurou honrar. Mas também devemos não nos dar por satisfeitos ao vermos que mais da metade de seus crimes cometidos enquanto Presidente do Brasil não foram nem colocados em pauta pelo Doutor Paulo Gonet, hoje Procurador Geral da República.
Eu acreditei por um tempo que talvez o motivo de ter Gonet sido o escolhido de Lula fosse justamente para enquadrar o Jair pelos milhares de assassinatos cometidos por ele enquanto no poder, e até agora, só me decepcionei.
A champanhe estará indo para a geladeira para ficar nos trinques para eu ir tomando um golinho a cada etapa do processo, e terminá-la no dia em que o Jair tiver o martelo batido naquela cabeça de otário dele, anunciando o veredito de condenado e sua sentença. Será um alívio ter manifestações jurídicas para esses crimes cometidos.
Isso não apaga o gosto amargo que cada gole terá em lembrança daqueles que o Governo Bolsonaro deixou morrer por escolha, por maldita necropolítica, cujas memórias não foram gravadas na história de nosso país pela justiça até agora.
ne-cro-po-lí-ti-ca
Classe gramatical:
s.f.
Palavras relacionadas:
necropolítico adj. s.m.
Definição:
Uso do poder político e social, especialmente por parte do Estado, de forma a determinar, por meio de ações ou omissões (gerando condições de risco para alguns grupos ou setores da sociedade, em contextos de desigualdade, em zonas de exclusão e violência, em condições de vida precárias, por exemplo), quem pode permanecer vivo ou deve morrer. [Termo cunhado pelo filósofo, teórico político e historiador camaronês Achille Mbembe, em 2003, em ensaio homônimo e, posteriormente, livro.]


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